"Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão sua beleza, se forem belos." (FERNANDO PESSOA)

SEBO ARILOQUE

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terça-feira, 29 de janeiro de 2008

CHUVA EM EXPRESSO


Um cara qualquer, numa casa qualquer, numa vida qualquer, acordou. O som da chuva se ouvia quando ela batia nos telhados das casas vizinhas e escorria pelas calhas. Logo sentiu um cheiro familiar, que evaporava de algum lugar. Foi para a cozinha e não encontrou a postos, nem o coador, nem o bule, nem a água fervendo. O cheiro ficava cada vez mais forte. Num surto imediato pegou a chave e abriu rapidamente a porta, projetando-se para  fora de casa, chegando no  meio da rua. Envolvido pelo calor das gotas que caiam do céu molhando seu corpo, abria a boca e deixava com que o gosto sublime, tomasse sua alma, descendo por sua garganta. Chovia café. (29/01/2008)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

VISCERALIDADE



Agora tudo me sai num arrebento,
Uma explosão de descontento,
A um passo de estar sedento...
Para no sacrifício poder transpor,
A asfixia do torpor,
Na fragilidade a se expor.
Em breves minutos, desfalecer,
Noutros mais breves, reviver,
Numa fração de segundos, responder:
Será tão amarga a sensação de existir,
Na confusão irreal que é sentir,
Saudade ou algo       sem definir?

Imagem: Dostoiévski - 1872
(23/01/2008)

domingo, 20 de janeiro de 2008

ATENÇÃO FLUTUANTE




Para Ana Paula

Entardece lentamente e descansa o Sol.
Enegrece a Lua num piscar eclipsado.
E no descortinamento da musa clara do espaço,
Desce o belo e vivo lençol alvo,
Cobrindo as ruas, janelas e corpos,
Que no seu sentido vital de existir,
Desdobram-se e encaixam-se...
Em movimentos, falas e adormecimentos.

(05/03/2007)

SONHO SOMBRIO DO JOVEM ANSIOSO



Dia quente de inverno...
Em um sonho decadente!
Descobri que no inferno,
O teu signo é a serpente.

Noite louca, exuberante!
Eu num sonho tão estranho...
Saboreava do teu sangue,
Com um prazer sem tamanho.

(Miguel Ariloque - 1995)

SE TU SEGURAS, SE TU DEFINHAS




Se tu seguras, se tu definhas...
Definhas para prender,
Seguras para definhar.

Se tu definhas, se tu seguras...
Seguras para prender,
Definhas para segurar.

Ora, mas que fazes então,
Se seguras e definhas irremediavelmente,
Na proposição de tanto querer?

Deixas livre o coração,
Que pelos dedos escorre suavemente,
Neste desespero de sobreviver?

Apenas então abra tuas mãos,
Não pense, não sonhes, simplesmente,
Seguras e definhas sem perceber!

(20/01/2008)

CANTO EM DOIS HAIKAIS* PARA O SILÊNCIO DO UIRAPURU




HAIKAI I

Eis que o silêncio acontece,
Se o Uirapuru entristece,
E seu canto, emudece.

HAIKAI II

Mas na floresta, seja o que for,
A saudade converte a dor,
Pela verdade do que é amor.

(20/01/2008)


*Haikai: poema curto, pelo seu formato de três versos de 5 , 7 e 5 sílabas, cuja origem é japonesa, entre os anos de VIII e XIII. Caracteriza-se pela sua pureza, não necessitando de passeios intelectuais em sua estrutura e pelo uso de temas da natureza como símbolo dos sentimentos e pensamentos dos homens. Dá a liberdade do leitor de fazer parte da sua composição, deixando-o criar ao refletir e sentir, quando lê. Qualquer pretensão “ocidental” (como esta) pode incorrer no uso de costumes lingüísticos que necessitam “explicar” demais o texto, ou “rimar” as frases. O que vale é a expressão.


Recomendação de LIVRO: Haikais de Bashô, de Olga Salvary (Tradução); São Paulo, Hucitec, 1989.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

AI DOS VENCIDOS!



Boemia que esbofeteia o meu rosto, sobre a cama
E ao meu pensamento, invade com a sua orgia,
Sustentando então o “eu fálico”, que já não me obedecia!
Causando a minha queda, dentre as pernas de uma dama...

Vaginal conhecimento, que discordo (e com razão!)
Fecha-te o monstro ímpio, que discórdia trás para mim!
Não mostra tua careta, mas com ela faça sim,
As alegrias de um pobre virginal de outra paixão.

(Miguel Ariloque - 2001)

O CAMINHANTE BINÁRIO NO LABIRINTO PROFANO E TECNOLÓGICO DA HISTÓRIA


I

Cresça voraz e faminta a ficção
De uma futura pátria una e tecnológica,
Madre de uma questão órfã e pouco lógica:
Vens salvar ou selar destruição?

II

Noutros tempos "imperfeitos", navegavam os navios
Conduzindo almas e corpos, pelo mar da descoberta
Ora vejo agora a mente, conduzida pelos fios,
Trafegando pelos bytes d’uma caixa que me desperta.

(Miguel Ariloque - Novembro/1997)

PERDIÇÕES



Dentro do túnel iluminado e quebradiço,
Decido em angústia para a vida me entregar...
Aos olhos dos outros, não tenho compromisso,
Se aos prazeres da dor pretendo desfrutar!

Invadido de ansiedade, meu peito aperta e explode!
Aos tristes sentidos, agora eu vou falar:
- Entender-se no espelho, ninguém mais pode...
E nas águas insanas eu quero navegar!

(Miguel Ariloque - Novembro/1997)

CARTA AO MISERÁVEL



Miserável e errante, é mais um ser neste mundo, perdido...
Perambulando feito alma penada, neste umbral corpo fedido,
Com as vestes em trapo imundo, e rosto-reflexo desnutrido.

Busca sua alegria, na chaga aberta, apodrecida,
Causa horror ao hipócrita, que com o carma elucida,
Esta tua condição de criatura esquecida.

Justifica sua vida, em nome da liberdade!
Despertando olhos piedosos, embebidos em mediocridade,
Doando seu sangue triste às sarjetas da cidade.

(Miguel Ariloque - 2001)

CRÔNICA PARA DOIS E A NOITE QUENTE




Na disposição dos corpos ao chão, jogados
Cobertos do cansaço de um trabalho afoito
Com goles de chá e repetições de coito
Estão personagens, ensaiando seus atos.

Deitam-se como amantes, desejosos, entorpecidos!
Conversam como amigos, sobre histórias e linguagens,
E despedem-se como estranhos, carregando as imagens,
Das fantasias e fatos, deveras, vivenciados.

(06/02/2007)

COMPÊNDIO DAS ESPADAS



Para o  amigo Fabio

Adeus por hora e por claros motivos.
Abraça as idéias e o compêndio.
Não te esquece das batalhas e do incêndio,
Que em duelo ateamos, desprovidos,

Das verdades, hierarquias e dos padrões,
Que regem o mundo e as mentes,
Mas não impedem o germinar das sementes,
De resistência das nossas humildes frações.

(20/12/2006)

ÉS MULHER



Parcela maior que a nós faz homens
Medida inexata de valor certo
Veneno ao longe e antídoto por perto
Juíza de serviçais, velhos ou jovens.

Voz dos cantares de todas as paixões
Fruto aos olhos do original pecado
Que desde a Gênese prescreve um legado:
És MULHER!... Emaranhada de imperfeições.

Tantos universos, num só gênero acumulado,
Por artimanhas inventadas, a cada dia, a cada hora...
Constituindo as fantasias, deste ser admirado,

Que por ti se confunde, engana, chora,
Exagera, luta, e mesmo cismado,
Entrega-se e, invadido, ama-a... agora!

(08/03/2007)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

SORTILÉGIO


















Ora o quanto prefiro a ira em doença
Frente ao vazio do nada incompreensível
A tortura lenta e inadmissível
A condenação suprema da não-presença.

A sentença em lâmina fria e crua
Que a pele rasga e a carne adentra
Punição sagaz, forte e lenta
Do silêncio imposto a alma nua.

(23/10/2005)

Referência da Figura: La tortura en Chile http://valparaiso.indymedia.org/news/2004/12/1200.php

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

TRÊS LAMENTOS DE UM SÁTIRO COMBATENTE

LAMENTO PRIMEIRO




Ágape eu ando para longe de ti.
Eros, não quero mais te encontrar!
Fileo me sustentas sem eu pedir,
por isso a ti, vou me devotar...

Ágape me engano, sobre sua procedência.
Eros me engana pelo afã de acertar!
Fileo, és plena minha consciência,
que nos teus braços eu posso descansar...


LAMENTO SEGUNDO



Venha metafísica me abraçar...
Oferecendo eternidade pela transcendência,
Resgatando-me da lenta decadência,
Apontando às portas que devo cobiçar.

Venham ídolos, ideais, idéias...
Cartas régias do além mundo!
Que na mente confusa se esconde no fundo,
Da doce imensidão celular das colméias.

LAMENTO TERCEIRO






Ora, pois não me atire os teus medos!
Nem mesmo os grilhões da tua consciência,
Atados ferrenhamente na inconsistência,
Das palavras tolas, escorrendo pelos dedos...

Não reinvente a si mesma, por hora,
Apenas contemple o meu ser dissolvido,
Pelo veneno arguto do mal-resolvido,
Pela sádica e cruel morte do agora.

(27/10/2005)

DISFUNÇÃO EXISTENCIAL

SER-EM-SI
Vejo outrora este “Eu” embrutecido
Nos autos da força geradora da minh’alma
Que com mão destra conduzia-me pela palma
E com coragem gritava, destemido:

Eis me aqui, matéria prima concebida
Pela idéia da eterna revolução
Da promessa de uma vida enriquecida
Do contrato que assinei em ilusão.

SER-POR-SI
Por hora descola-te do “Eu” bruto
E trafega pelo inconsciente coletivo
Elabora um plano drástico, astuto
E suja de sangue esse sonho paliativo

Derruba cada um dos muros da Bastilha
Pulveriza toda essa distorção materialista
Cria sem espírito, a tua própria filha
Para desintegrar o trono do pai imperialista.

(14/09/2006)
Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

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