"Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão sua beleza, se forem belos." (FERNANDO PESSOA)

SEBO ARILOQUE

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O QUE TERÁ ACONTECIDO COM HARRY HALLER?


Suponho que Harry* submeteu-se a justiça dos homens. Seu corpo foi julgado e condenado. Mas a sua luta contra os próprios padrões, microcosmo da vida de todos no século que o antecedia foi vitoriosa. O Jazz foi o transporte a uma nova visão de mundo. O improviso no século de Einsten onde "tudo é relativo", passa a conduzir a alma dos que se rendem a essa transformação. Seu corpo está encarcerado e jaz num pequeno quadrado de alvenaria. Sua mente desliza pelos corredores e assentos do teatro. A cortina de veludo está envelhecida e os amáveis fantasmas das belas damas da noite, cantam ao som do sopro flutuante e bemolizado do sax. Está superada a estrutura bela e rígida da dança das notas clássicas. Cabe agora o balanço e a incerteza das notas inventivas, misturadas, sem destino. Paulo, doce maldito anfitrião abre as cortinas para os demais prazeres e anos loucos. Harry está mais vivo do que nunca.

*Harry Haller, personagem do romance "O Lobo da Estepe" (Dear Steppenwolf), do escritor alemão Hermman Hesse, publicado em 1927.

Imagem: Obra da artista plástica e fotografa sueca Hanna Eliasson disponível em http://www.lupomanaro.com

sábado, 16 de fevereiro de 2008

BEMOL PARA A DIÁSPORA DAS ALMAS



Cinco séculos de diáspora, não somente transportou,
Os filhos da velha África, escravizados e comercializados,
Para servir de braço forte, ao capital dos “civilizados”,
Construindo com trabalho, a riqueza que não desfrutou.

E se ainda não bastasse ao povo africano espalhar,
Sua terra dividiu entre a Europa dos Impérios
E a vida destes nativos, submetida aos impropérios
De novamente ser escravo em seu próprio habitar.

Mas não somente este fardo histórico ao mundo apresentou
Destes povos segregados, não pode ser esquecido
Que marcaram sua atuação, como povo destemido,
E pela transformação das culturas dos lugares em que chegou.

Haja visto na América do Norte, da dança e lamento blue,
Que tomaram as plantações com alma e a voz,
Enquanto a festa em batucada, nos terreiros das avós,
Disfarçada em rituais sincréticos, na América do Sul.



Imagem: capa do excepcional álbum de Jazz From The Plantation To The Penitentiary [2007], de Wynton Marsalis.

FILHOS DA AMÉRICA - ÚLTIMOS MOMENTOS DE UM CONDENADO A VIDA



I
América da pátria, da força e da democracia,
Os teus filhos crescem, com o leite do teu seio
Instrumento pedagógico, que em termos, não tem meio
Quanto aos resultados de sua idiossincrasia.

II
E nesta sede torrencial por uma “ordem de nação”,
Dirigida por protestantes capitalistas e católicos molestadores,
Houve a gestação dos teus filhos, responsáveis por horrores,
Cometidos entre as artérias do seu próprio coração:

III
Noticiário: - Nesta tarde de inverno, um jovem universitário,
No saguão da instituição onde estudava,
Com uma pistola em cada mão, aos tiros se vingava,
Das vozes que diziam: “tu és louco, imbecil, otário!” 

IV
E vinte corpos após sua máxima empreitada,
Com um disparo final pôs fim ao seu plano,
E outra vez, o mundo assistiu sem engano,
A mais uma chacina "absurda, inexplicada".

V
Mas por que então caro hipócrita e alienado americano,
Não tira os olhos do noticiário que com sangue te seduziu,
Vá e pensa na sociedade que a este "assassino" produziu,
E não apenas chora os mortos do “criminoso desumano”.

VI
Veja tuas leis de uso de armas, viáveis desde o nascer,
Reflete a tua opressão moral, autoritária e viril,
Chora também os mortos, das nações que invadiu,
E lá conforta os órfãos e viúvas, que ainda estão a padecer.

Foto em negativo do jovem sul-coreano Cho Seung-hi, que vivia nos EUA desde 1992. Suas fotos foram exibidas como "troféu" por uma rede de TV americana, após ter cometido o massacre no Instituto Politécnico da Virgínia, em 2007.
Dica de filme:
Assassinos por Natureza (Natural Born Killer), 1994, de Oliver Stone http://www.jornalismo.ufsc.br/jornalismoemcartaz/assassinos%20por%20natureza.htm

 

sábado, 9 de fevereiro de 2008

ÉTICA PREPOTENTE E O ESPÍRITO DO CONFORMISMO



Desde as ordens das tábuas de Moisés,
Aos cravos nos punhos do salvador,
Atribui-se aos planos do criador,
Conquistar toda a terra, debaixo dos pés.

Mas no afã da pilhagem, da prata e do ouro,
E na conversão de pobres nativos sem alma,
É que a estratégia se impôs, pela calma,
Da execução do índio, do negro, do mouro...

E no colo dos príncipes, o protesto se deitou,
Para a "Santa Madre", negar toda autoridade,
E esta em reação, ao zelo da santidade,
A companhia de Jesus, prontamente, convocou.

Mas nas terras anglo-saxãs estourou,
As guerras das práticas cristãs, "opostas"
E na loteria das cruzes, não cabia apostas,
E a fuga para o Norte da América, chegou.

Nestas terras porém, a ética se casou
Com a fé para o trabalho, as posses e conquistas
Construíram todas as bases imperialistas,
Do pentecostal reino que se instaurou.

Para saber mais: http://imprimis.arteblog.com.br/3660/A-ETICA-PROTESTANTE-E-O-ESPIRITO-DO-CAPITALISMO-de-MAX-WEBER/

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

PEQUENA CANÇÃO DOS ESPELHOS



Na profundeza destes olhos teus,
E na imensidão deste seu coração,
Palavras eu busco e rebusco em vão...
Pois ainda não foi criado por Deus,

Um adjetivo ilustre a tão bela claridade,
Nem mesmo um termo exato e glorioso.
Mas como para a arte, basta o olhar curioso,
Resta-me então aguçar-te a vaidade:

Tens as mais belas janelas d’alma que conheço!
Que não se comparam a quaisquer relatos de verdade,
Sobre o brilho de tesouros e amores de começo.

Dedicado aos olhos de Fátima Kadri

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

CHIMAERA



Sei que existes, mas não conheço tua face,
E mesmo que em Chimaera*, tenha colonizado teu corpo,
Não houve ritual qualquer que aproximasse,
Razão alguma a este ser tolo e absorto.

Tens, sei bem eu, um desafiador esconderijo,
De artimanhas, elaborações e complexo enigma,
Na construção romântica que não mais me exijo,
Na insatisfação que me imputa tal estigma.

E nos conflitos entre Apollo e Dionísio, sou ferido!
Na trincheira em que desmancho os dias, as horas.
Onde o encanto da Vênus esta sendo perdido,
Na petrificação das cicatrizes que corroboras.

* Quimera, em latim. A palavra pode significar "fantasia, utopia, ilusão, sonho ou absurdo". É simbolicamente representada por um monstro fabuloso com cabeça de leão, corpo de cabra e calda de dragão.

(04/02/2008)

SONHO PARA 2014



Marlon acorda cedo. Sem mesmo lavar o rosto, calça as chuteiras de marca famosa que ganhou como melhor jogador num amistoso do time em que atua, promovido pela Secretaria de Esportes da sua Cidade. Antes de sair de casa para o treino, procura por pão e leite para saciar sua fome. Não encontra. Toma um copo d’água e sai, após certificar-se de que seu irmão Mario, de sete anos, está acordado e cuidará do outro irmão, Marcio, de nove meses. Está feliz por saber que no dia anterior o Brasil foi escolhido para sediar a Copa de 2014. O sonho brilhou mais do que nunca em seu coração e sua mente. Aos onze anos e com o mesmo ideal de milhares (ou milhões) de garotos pelo Brasil, deseja ser jogador de futebol profissional, titular do Corinthians (por quem é apaixonado) e da Seleção Brasileira. Com aplicação e empenho, acredita que aos dezoito anos, poderá fazer parte do grupo que disputará o Mundial daquele ano (afinal, como sabe, Pelé, negro como ele, jogou uma Copa com dezessete anos!). Sua mãe (empregada doméstica) apóia que siga a carreira de jogador de futebol, permitindo que falte de duas a três vezes por semana na escola, para participar dos treinos do time. Deseja que ganhe muito dinheiro e ajude a melhorar as condições em que vivem. Moram em um barraco de madeira construída em área de risco à margem de um córrego, onde uma televisão (em sua casa tem uma!) e um sofá (em sua casa não tem um!), jogados em seu leito, obstruem o fluxo de água. Na última chuva forte, enquanto sua mãe e vizinhos lutavam para salvar móveis, roupas e poucos eletrodomésticos, além de tentar escoar a água de dentro de casa, Marlon chutava a bola num muro, a alguns metros dali, sem preocupar-se em ajudar. Gritava nome de jogadores, associando-os a dribles e provocações de torcida. A cada toque na bola, cerrava os punhos e a energia ali concentrada, irradiava certo ódio à sua condição de vida e esperança em acontecer de fato como astro da bola. Qualquer semelhança com a realidade é mera certificação de que a verdade pode doer muito, até quando se trata de um sonho.
Postado originalmente em http://clubedacronica.blogspot.com em 19/12/2007.
Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

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