"Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão sua beleza, se forem belos." (FERNANDO PESSOA)

SEBO ARILOQUE

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domingo, 24 de outubro de 2010

O BANQUETE DAS FÚRIAS

Cupidon et Psyché - Jacques-Louis David (1817)

Disseste-me "Venha me visitar.
E traga-me o teu melhor alimento."
Respondi então, sem exitar, "Levo-te
o melhor que eu tiver no momento."
Recebeste-me então, sagaz e faminta,
Despindo-me das minhas oferendas.
Exigiste-me: "Onde estão os temperos,
que dão gosto a tal mesa que ostenta?"
E tomada então foste, tu,
Na força dos meus braços que a controlava,
E de faminta e devoradora gulosa,
Principal prato, tornou-se furiosa!
"Que fazes, comigo?!", gemeste, indignada!
Enquanto que com beijos,
No pescoço, te contornava:
"Carnes e frutos, somos então,
Compartilhados nas travessas da loucura,
Temperados nos sais da paixão,
Ou nas amáveis caldas da doçura."

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O BARCO DO DELÍRIO


Na beira do mar, esperei.
Apontaste então, dentre a neblina. 
Perguntei: "Para onde tu vais?"
E deslizando sobre as águas tais,
O Navio encostou, arremeteu
Dele uma voz então, respondeu:
"Aqui, destino não tens e não terás!"
Mesmo assim, embarquei...
Para esta jornada, me entreguei!
E no barco a balançar alucinado,
De um lado, para o outro lado,
Perguntei completamente atordoado:
"Quem estende-me a mão,
para que eu seja amparado?"
E eis que, ao meu redor, rodopiando,
Numa dança que não explico, narrando,
Terpsicore, a musa, surgiu bailando:
"Não te seguro, não te seguras,
Nem nas profundezas, nem nas alturas".
E naquela fração de segundos, já apaixonado
Pelas trombetas do amor fui petreficado,
E no Barco do Delírio, eu havia naufragado.

OS CÂNTICOS DO TEMPO


Crowley e Pessoa (Portugal-1935): Xadrez

Tempo... 
Que venhas!
Escorre pois, 
Pelo meu espírito!
Toma 
Cada um 
dos fios
Da minha
Cabeça... 
Cada um
dos poros
da minha
Pele...
Pinta de branco,
Engana 
com encanto,
O desespero
Que começa!
Os cânticos
Da sabedoria,
Ressoa,
Um a um.
Acalma-me,
em verso,
Sem prosa,
Em Pessoa.
Metafísico,
Pragmático,
Senhor,
Tempo.

sábado, 2 de outubro de 2010

EU, UM POÇO


Não fosse eu,
Um poço dos mistérios,
Celestiais e mundanos,
Estaria você, curiosa e,
Nas entrelinhas de ser,
Para mim, auspiciosa?

Não fosse eu,
Um emaranhado de paixões,
Possíveis ou improváveis,
Estaria você, ansiosa e,
Nas obviedades de ser,
Para mim, presente?

Não fosse eu,
Um acumulado de vazios,
Sem nome ou direção,
Estaria você, distante e,
Nas angústias de ser,
Para mim, quem é?
Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

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