"Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão sua beleza, se forem belos." (FERNANDO PESSOA)

SEBO ARILOQUE

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domingo, 10 de abril de 2011

A FOME DOS ESQUECIDOS

A sesta - Van Gogh (1890)
Escala-me
Voraz, feroz!
E quando, a sós,
Doa-se a mim. 
E por fim,
Sêde de que alimento-me!

Tempero as tuas curvas,
com meus olhos, condimentosos...
E jantar-te-ei as pernas, com bebidas turvas,
Digerindo-te em partes, com molhos saborosos.

Dormirei então, a sesta dos preguiçosos,
Do corpo cansado, amolecido,
Pelo devorar herdado dos ardilosos
E bárbaros descendentes esquecidos.
Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

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