"Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão sua beleza, se forem belos." (FERNANDO PESSOA)

SEBO ARILOQUE

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domingo, 3 de junho de 2012

SENTIMENTO CORSÁRIO


Hoje não tenho
inspiração.
E a respiração,
desdenho.
na refração
da ilusão
que se desfez
pelo chão.
Insensatez
de momento,
quem sabe, talvez
um tormento.
Tormenta,
lamenta,
cria-se uma ementa:

Eis que sopra meu vento,
é chegada a hora de embarcar.
Deixo meu beijo e meu intento,
d'um outro sonho, recomeçar...


Por ora meu mar é o meu peito,
em que navegam navios solitários,
e a bravura de sentimentos corsários,
que dele também fazem seu leito.


NARCISO'SONG


Das coisas que tanto almejo,
De tudo aquilo que preciso,
Não estão os olhos de Narciso,
Que se contemplam no próprio desejo.

Tão pouco faço um espelho, com a água,
Pois desta, somente a fluidez me interessa,
Ao abraçar minha alma que confessa:
Quem tanto se olha, n'outro causa mágoa.
Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
E sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

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